14 de outubro de 2013

Mundo frágil feito vidro

Enxergo o mundo através de pedaços de vidro. Nunca vou saber se as cores e formas são para mim, como são para as outras crianças. Sei, somente, que ao abrir os olhos pela manhã vejo um mundo sonolento, embaçado como aqueles quadros borrados que os adultos gostam. 

Minha mãe sempre diz para eu tomar cuidado com meus arrumadores de visão. Para não deixar cair. Para não riscar a lente. Crianças não são cuidadosas consigo mesmas. Mas dos óculos, cuido como se fosse coisa de outro alguém que a gente deve ter o maior zelo.

Acho que fiquei errada por causa disso. Eu gostava de jogar queimada e handebol. Até o momento em que não consegui mais fazer isso sem os quatro olhos. Meus colegas não são burros. Logo se aproveitaram do meu ponto fraco nas aulas de Educação Física. As bolas começaram a voar na direção dos meus óculos. Então fui ficando medrosa. Cada vez mais escondida atrás dos outros, fui sumindo aos poucos. Até ser a última escolhida para o time.  Até sentir um desconforto enorme por não gostar da aula mais esperada da semana e me transformar em uma criança diferente.

Mas ainda gosto de brincar de historinha, desenhar e jogar futebol com os primos. Eles não me zoam porque eu sou a mais velha. É meu trunfo! Espero que eles nunca descubram como se faz isso. É uma coisa triste. 

Acho que nunca derrubei meus óculos no chão. Mas consigo andar no escuro, pois não tenho medo e decorei os caminhos seguros de casa. É engraçado. Eu poderia ser corajosa e viver sem os óculos. Mas mamãe diz que dá dor de cabeça. E eu também não gosto nada de enxergar pela metade. É como se eu estivesse sendo enganada pelo mundo. Como se fosse uma pegadinha sem fim, como as bolas jogadas na cara. 

Minha irmã mais nova não é como eu. Ela não liga muito para os óculos. Deixa cair. Quebra. Mamãe vive brigando com ela. Mas ela se esquece de prestar atenção. Vive no mundo da lua, como diz o papai. Já eu, vivo agarrada ao planeta Terra. Cheia de preocupação com os buracos pelo caminho. Cheia de medo que as lentes de vidro se espatifem e eu perca a única possibilidade de observar o mundo da forma como as pessoas com olhos bons enxergam.


12 comentários :

  1. Jessica

    Fiquei encantado com o teu texto. Prosa poética, crônica, pouco importa. É um texto que prende e toca. Queria ler outros. Belo estilo.
    Bjs
    Jacinto

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    1. Obrigada, Jacinto! Fiquei até emocionada com o seu comentário. É muito significante a opinião de um poeta tão brilhante como você. =*

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  2. Querida Jessica, companheira de vistas protegidas por escudos invisíveis, encontro afinidade e poesia nas suas linhas. Obrigado e vida longa!
    Fabiano

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    1. Obrigada pelo comentário, querido Fabi! Um beijo grande!

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  3. Denota-se bem o arquétipo "terra" e o arquétipo "ar/fogo" de sua irmã mais nova... rs. Parabéns pelo texto, espero poder ler mais! :D

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    1. É mais ou menos assim: a criança protagonista tem ascendente em Touro. Já sua irmã, tem ascendente em Sagitário. Deu pra entender? Hehe. Beijos e obrigada pelo comentário.

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  4. Jéssica, adorei. Consegui ver o mundo através de suas lentes e me prendi ao texto até o fim. Vamos jogar queimada?
    Cristina

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    1. Cris, obrigada pelo comentário! Vamos jogar sim! Continuo medrosa mas agora tenho as empoderadoras lentes de contato. Rss. Beijos

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  5. Menina, se o seu olho não é bom, para tudo. Lindo seu texto. Lindo seu olhar. :)

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  6. Entrei tanto na história que me senti como uma amiga de infância...que por um momento pega seu óculos emprestado e vê o seu mundo... Beijos

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    1. Que lindo comentário, Carol! Adoro tê-la por aqui!!!

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