21 de junho de 2008

Benedita tá confusa

Benedita tá confusa

Certo dia Benedita foi ao açougue
comprar carne e trouxe peixe
Em outro, foi à padaria
comprar pão e trouxe alface
Depois foi à banca
comprar jornal e trouxe caneta
E então foi à boutique
comprar calcinha e trouxe cueca.

Sei pai falou:
- Cueca Benedita? Aí já está ficando estranho.

Benedita continuou.

Foi comprar suco e trouxe leite.
Foi comprar leite e trouxe cerveja.
Foi comprar cerveja e trouxe um bolo.

Sua tia falou:
- Benedita deve estar com febre. Está confusa. Tô com medo.

Benedita continuou.

Foi namorar José e trouxe o João
Foi namorar João e trouxe o Juca
Foi namorar o Juca e trouxe a Jandira

Sua psicóloga falou:
- Ah! A Benedita tem alguma coisa com a letra J.

Benedita continuou.

Foi trabalhar e trouxe areia no pé
Foi à praia e trouxe mato na canela
Foi ao mato e trouxe poluição na cara.

Seu avô falou:
- Benedita vai mudar pra São Paulo.

Benedita não mudou não, e continuou.

Foi à igreja e trouxe o pecado
Foi à delegacia e trouxe o crime
Foi ver a ordem e trouxe a bagunça

Sua vizinha falou:
- Vamos internar Benedita!

Mas Benedita continuou
Continuou mudando de ideia,
Mudando, mudando, mudando

Foi até atrás da morte!
Mas roubou-lhe a foice e se trouxe de volta.

Sua mãe falou:
- Oh! Benedita vive!

Benedita ergueu a foice e rasgou o mundo
Ele se fez em dois, mudou de ideia
E o fez em quatro, seis, oito.
Fez o mundo em picadinho,
Então se dividiu também.

Benedita enfim se decidiu, queria colar de volta
Mas era tarde, dividira muita coisa
Voltou a ficar confusa,
Pois sobrou tudo muito miúdo
Então ela desistiu, e explodiu seu mundo

E Benedita ficou do jeito que gosta. Infinitas poeirinhas do que já tinha sido um dia. Milhões de opções de se reinventar.

18 comentários :

  1. Muito bom! Parece-me que estamos neste momento mesmo: de nos picotarmos em pedacinhos e nos reinventarmos numa nova e mais aprimorada versão.
    Parabéns!

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    1. Que assim seja! Obrigada pelo comentário. =)

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  2. Martinha Mendes Santos5 de fevereiro de 2014 05:25

    Muito bom...
    As vezes cada um de nós é um pouco Benedita...

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    1. E, em outra vezes precisamos ser muito Beneditas. Obrigada pelo comentário, Martinha. Bjs.

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  3. lindo poema! parece-me da veia poética de um poeta ateu que gosto muito Joan Reventós i Carner ( Joan Reventós). Nesta figuração simbólica "infinitas poeirinhas" contrapondo-se à " milhões de opções" , para mim está a beleza e a síntese da vida, nossa vida, dita poeticamente. somos milhões de poeirinhas com infinitas opções de nos reinventar...Li o Gênesis. beijinhos. marina trindade

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    1. Obrigada pelo comentário, Marina. Não conheço Joan Reventós, mas já vou tratar de ler seus escritos. Seja sempre bem vinda aqui. Bjs

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  4. Benedita é a síntese de nossas indecisões existenciais. Divide quando quer somar, fica, quando quer partir. Tem algo mais humano que esse desassossego? LINDO POEMA Dadinha

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    1. O negócio é estar sempre em movimento. Obrigada pelo comentário! :***

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  5. Belíssima Benedita, como eu, que como-me aos pedacinhos...
    Cara benedita...
    Um carinhoso abraço.

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    1. Se fazer em pedacinhos para ser o que quiser. Obrigada pelo comentário!

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  6. Bendita benedita!! Parabéns pelo belo poema...

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    1. Obrigada, Giovani. Seja sempre bem vindo aqui. Abraços!

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  7. Benedita poesia, sempre nos trazendo belas surpresas. Bem que o Gilson me falou bem de você. O homem tem olho clínico, rs.

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    1. Obrigada pela leitura, Tião! Seja sempre bem vindo ao blog. Abraços!

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